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20 de setembro de 2008

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Curitiba elege prefeito em 2008 de olho em 2010

por cila schulman

A candidata promete internet de graça e garante que já conversou com o presidente Lula para viabilizar o Metrô na cidade. É Marta Suplicy? Não, é Gleisi Hoffmann, também candidata do PT, mas em Curitiba. As propostas de ambas são música boa na orelha do eleitor, mas a coincidência me fez lembrar aquela propaganda antiga, tipo o texto é o mesmo, mas a voz, quanta diferença.

Sim, estou em Curitiba e ontem vi os programas de propaganda eleitoral na TV. Foi minha primeira vez aqui nestas eleições. E deu para entender que um dos principais assuntos na capital do Paraná é o mesmo da eleição em São Paulo: o trânsito.

transporte coletivo inovador

Curitiba: transporte coletivo inovador

Habituados a um transporte coletivo inovador e a um planejamento urbano competente, os curitibanos passaram a sofrer, como o resto do mundo, com o excesso de carros nas ruas. A conseqüência? Os que têm carro enfrentam rush no final da tarde e demoram mais tempo para chegar em casa na hora do almoço. É, em Curitiba ainda se almoça em casa. Os que usam o transporte coletivo acumulam reclamações pela saturação do sistema e nem pensam mais na glória de voltar para casa para almoçar.

Quase todos os candidatos falaram disso ontem. O quadro mais engraçadinho foi o do candidato Carlos Moreira (PMDB), um cinema mudo mostrando as filas no transporte coletivo e apelidando  o Ligeirinho, ônibus que tem uma plataforma especial de embarque, de Devagarinho. Maldade pura.

Mas nada disso é capaz de ameaçar a reeleição quase que por aclamação do prefeito Beto Richa (PSDB), que tem 72% de intenção de votos e 88% de aprovação de sua gestão na última pesquisa do instituto Datafolha.

Tanto é que ele se deu ao luxo, no programa de propaganda eleitoral da noite de ontem, de falar de cultura. Com direito a apresentação de quarteto de música clássica no parque e tudo. Coisa de cidade que já não precisa mais discutir fila para vaga em creche, falta de médico no posto de saúde, falta de emprego, de segurança e outras chatices que tomam conta da campanha que eu acompanho diariamente, a de São Paulo.

Não assisti ao início da campanha. Certamente que Beto fez promessas e apresentou obras para chegar a esta aprovação recorde. Provavelmente já falou de saúde, de educação e de transporte. Também é verdade que, comparada a outras capitais, Curitiba dá um baile em todas as áreas da administração municipal. Há décadas. Assim, já que está onde está, Beto pôde não abordar o assunto transporte coletivo ontem. Para não ser injusta, registro que localizei um ônibus miniatura, daqueles de brinquedo, no cenário do candidato. Sim, estava lá, vermelhinho, ao lado de outro enfeite que identifiquei como sendo um punhado de soldadinhos de chumbo. Podem não ser soldadinhos. Podem ser.

Fernanda Richa

A advogada Fernanda, mulher de Beto

Pelo sim, pelo não, Beto faz uso de um trunfo feminino para enfrentar Gleisi. É sua mulher, Fernanda, que não é jornalista nem atriz, mas faz as vezes de apresentadora de TV. Bonita e inteligente, a advogada e presidente da Fundação de Ação Social conduz todo o programa da tarde. Sem no entanto falar de nenhum de seus projetos ou idéias.

O papel dela é chamar reportagens, jingles, entrevistas e estimular as pessoas a baixarem vídeos de apoio ao candidato no Youtubeto, um Youtube próprio criado no site da campanha. Gente que tem celular com filmadora e internet de banda larga, claro. E que se dispõe a fazer alguma gracinha para o candidato. Ou fazer os filhos fazerem gracinhas públicas para o candidato. Gente esquisita esta, com todo respeito.

Youtubeto à parte, confesso que fiquei um tanto constrangida com o mico que Fernanda está se dispondo a pagar para ajudar a eleger o marido. Sei que ela é incansável, topa qualquer parada, é ponta firme mesmo, tanto em eleição quanto na vida. Mas vamos combinar que é mega machista a decisão do marketing da campanha tucana de colocar uma mulher tão inteligente numa posição tão gratuita (sem trocadilho). Não que ela não se saia bem, apenas é que a visão de confrontar mulher com mulher, beleza com beleza, feminilidade com feminilidade, é totalmente machista. Não há quem me convença do contrário. Não dá para imaginar, por exemplo, o marido de Gleisi, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, se prestando a assumir a mesma função na campanha da mulher. Apenas porque ele é homem. Que me perdoe o ministro, mas nessa hora, beleza é fundamental.

Tudo bem, até no país professor de democracia, os Estados Unidos, foram achar uma governadora bonita e de classe média para compor a chapa do republicano John McCain. A estratégia foi criar um grande fato e ganhar os votos que sobraram da democrata Hillary Clinton quando ela ficou de fora da disputa. Teria dado certo não fosse a nova derrocada da economia norte-americana, que favorece a oposição e tem como resultado um novo crescimento de Obama.

Aqui mesmo, em muitas eleições no Brasil, já tivemos candidatas a vice cumprindo papel semelhante. O ápice foi a deputada Rita Camatta na chapa de José Serra em 2002, que mais aparecia como um rosto bonito do que como figura política na televisão.

Estes exemplos, no entanto, não se comparam ao que estão fazendo este ano em Curitiba. Minto. Tentaram fazer coisa parecida com a Lú Alckmin no segundo programa destas eleições municipais em São Paulo. Também foi no horário da tarde, considerado menos nobre e mais apropriado para programas de TV que apresentem receitas de bolo, dicas de beleza, debates sobre futilidades e outros assuntos de mulherzinha.

O quadro da mulher de Alckmin logo ganhou o apelido de “Sofá da Lú”, embora tenha ido ao ar uma única vez. A idéia  foi imediatamente questionada pelo comando político da campanha. Daí que o material passou por pesquisa qualitativa, bateu na trave e sumiu. Para alívio do eleitor, diga-se.

Em Curitiba, nem é o horário da tarde de Beto o que merece o troféu de pior exemplo de machismo nos programas eleitorais. Ganha de longe a medalha de aparição mais patética uma incompreensível polaca tentando ironizar o jeito de Gleisi se vestir. A criação  bizarra é do programa do candidato nanico Lauro Rodrigues. O texto da atriz não é sequer divertido, sua atuação é descabida e fica a sensação para o eleitor de absoluta perda de tempo. Uma bobagem. Daquelas bobagens que só os machistas, desde que capazes de entender tanto besteirol, acham alguma graça. Ou se trata de piada interna, para divertir redatores igualmente preconceituosos.

Gleisi Hoffmann

Gleisi Hoffmann, candidata do PT

A polaca não chega a atrapalhar Gleisi, porém pouca coisa nesta eleição ajuda a candidata. Ela, que disputou somente uma eleição majoritária no Estado e ainda é desconhecida do eleitor,  ficou sozinha com a tarefa de vencer o invencível Beto. Todos os candidatos fortes desistiram e alguns possíveis apoiadores se bandearam para a coligação de Richa. O presidente Lula fez até uma gravação telefônica pedindo voto para ela. Parece inútil, Gleisi não passa dos 15% de intenção de votos nas pesquisas.

Consta que um dos equívocos da campanha do PT foi ter criticado Curitiba. Faz sentido, pois curitibano é um povo orgulhoso do projeto de urbanismo criado nos anos 70 por Jaime Lerner. E que ninguém fale mal da cidade, curitibano vira bicho. Ontem, no programa, as mazelas já não estavam mais em cena. Apenas propostas e um forte apelo para que a decisão seja levada para o segundo turno.

Agora pouco recebi em casa um telefonema do Beto Richa me pedindo pra falar com os meus amigos que ainda estão indecisos para que votem nele e acabem com a eleição no primeiro turno. Foi uma gravação de telemarketing. Ele explicou que eu estou num lista de voluntários da candidatura tucana. Então tá.

Mas voltando ao nosso tema: o grande ausente da campanha é o governador Roberto Requião, detentor de muitos votos em Curitiba. Assim, Moreira, o desconhecido candidato do governador, não sai do 1% de votos.

Requião e Richa no Palácio Iguaçu

Os adversários Requião e Richa no Palácio Iguaçu

Beto Richa começou a crescer, ainda no ano passado,  quando  rompeu com Requião. Fez isso a duras penas, depois que o governador atacou a memória do seu pai, José Richa, e a honestidade de seu coordenador de campanha, Euclides Scalco. Até então, Beto insistia em manter boas relações com Requião. O prefeito venceu o medo e seu movimento deu certo, pois desde aquela época, por outros motivos, Requião vem caindo em desgraça. Para sorte de Beto candidato.

Agora, o silêncio do governador beneficia ainda mais o próprio Beto, que não precisa nem enfrentar a língua ferina de Requião como contraponto nesta campanha.

O jornalista Celso Nascimento, que assina a coluna política mais influente do Paraná, registrou semana passada que haveria um acordo branco entre Requião e Beto para 2010. O primeiro teria o caminho aberto para se eleger senador, o segundo, governador, numa corrida sem obstáculos. Ninguém desmente, ninguém tampouco duvida, já que o Paraná é pródigo em acordos brancos entre adversários políticos.

Beto Richa e Luciano Ducci tomam posse na Prefeitura em 2005

Beto Richa e Luciano Ducci na posse em 2005

O fato é que, estando a tese correta, Beto e Requião se livrariam de uma só vez dos concorrentes Osmar e Álvaro Dias. Os dois irmãos senadores que hoje apóiam Beto são os mais entusiasmados candidatos ao governo em 2010. E principais adversários políticos de Requião neste momento. Caso Beto eleito prefeito saia candidato ao governo dois anos depois,  agradará Requião também em outra seara.  Assumiria a Prefeitura o vice, Luciano Ducci, que deu mostras de sua lealdade ao governador o apoiando contra Osmar Dias em 2006, apesar de todo o seu grupo político ter ficado do outro lado. Isso também é típico do Paraná, palco de traições inimagináveis.

Nas ruas de Curitiba, vi poucos carros adesivados e quase nenhum movimento eleitoral, exceção aos desanimados agitadores profissionais de bandeiras. É um final de semana de frio e chuva, mas o silêncio me soou atípico para este período. “Nenhum trompete toca quando são tomadas as decisões importantes de nossa vida. O destino é anunciado silenciosamente”, ensinava a coreógrafa Agnes de Mille. E assim, em silêncio, sem nenhum toque de trompete, poderá ser uma vez mais decidido o destino do Paraná.

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3 Comentários Comente
  1. Marlon de Toledo
    set 24 2008

    Excelente avaliação da campanha eleitoral tucana em Curitiba. Também venho observando essa movimentação machista em torno da imagem da esposa do Beto. Fora dessa questão de machismo, acredito que a estratégia funcione, principalmente pela credibilidade imposta pela figura da Fernanda.
    Agora avalio que a campanha de Gleisi não deslanchou também, pela identificação com o Beto. Parece que ela não conseguiu se colocar como uma opção para essa Curitiba que tem problemas que não foram resolvidos pela atual administração. Parece mais do mesmo, por isso o que representa para o povo curitibano conservador, que é melhor continuar com o que está lá, a exemplo de como foi com Lerner, Greca e Taniguchi.
    A respeito do Requião, isolado no Palácio Iguaçu, grande entusiasta do Moreira, que praticamente obrigou o PMDB a escolhê-lo, e agora o abandona. Realmente precisa agir para recuperar o prestígio até 2010, senão não se elege para o senado (nem para sonhada presidência), tão pouco elege seu sucessor.
    Estou trabalhando na campanha do PT para prefeitura de Toledo-PR, e aqui o uso das mulheres dos candidatos tem suas peculiaridades locais: a esposa do atual prefeito, candidato a reeleição, é absolutamente inexpressiva, dona de casa, carola, acusada de receber salário da prefeitura sem trabalhar; enquanto o candidato do PMDB, o empresário Beto Lunitti, está em seu 5º casamento, e apenas exibe sua esposa nova como um bibelô; e por último a esposa do candidato do PT, o deputado estadual Elton Welter, professora universitária, graduada em filosofia, apareceu no último programa com um texto entrecortado, dando seu parecer pessoal da campanha, num tom emocional, o que não deixa de ser uma visão machista de que emocional está ligado ao mundo feminino e o racional ao mundo masculino. Nesse cenário a coordenação aqui achou que pode funcionar. Sabe deus, é mais um tiro no escuro. Parece que usar a esposa é um fato histórico nas eleições.

    No mais, parabéns pelo seu blog.
    Marlon de Toledo (natural de Curitiba)
    Temporariamente em Toledo-PR
    Editor de VT do Programa Welter Prefeito
    http://www.welter13.can.br
    No site você pode assistir aos últimos programas.

    Resposta
  2. Marina
    set 30 2008

    De onde esse rapaz tem essa informação equivocada do candidato Beto Lunitti de Toledo????

    1º- ele não está em seu 5º casamento, e sim no 2º .

    2º- sua esposa está fazendo um papel brilhante e de muita importância com participação de 100% na campanha do marido, e não vejo isso como uso machista da esposa.

    3º- você está bem por fora das informações da cidade de Toledo marlon! procure se informar primeiro antes de passar informações desencontradas de pessoas de bem desta cidade, nota-se que não é daqui mesmo!

    Resposta

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  1. BETO CUIDADO. PERIGO A VISTA « Dr. Lineu Tomass

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